Sábado, Novembro 14, 2009

Algol.- By Jurjo Nóvoa

Algol is the name of a double star. These are a few poems about fixed memories emerging from time to time. The Atlantic, the green land, the melody of a language are constant remembrances. Poetry is here aimed to keep secrets alive.

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PINGO


Pingada de suor
escuto a tua voz
que viaja pela chuva
como os deuses do agro,
que é gatada e anzol
quando baza a maré,
quando o céu escamado
já me canta no papo a tua chegada.

Pingada de suor
escuto a tua voz
que é semente e rede,
que é galerna e futuro,
que é fruto azul escuro,
amora dos ocêanos.

Pingada de suor
escuto a tua voz
que engada o peixe mouro
e as bússolas hipnóticas,
que é cavalo mareiro,
língua a bater na noite,
cor de jazz em setembro.

Pingada de suor
escuto a tua voz
quando a lua tem cerco
e o teu ventre é uma alquimia
de iodo e marusia,
quando a cauda do sal
peneira os caracois do teu cabelo.

Pingada de suor
escuto a tua voz
e bebo o morno som
como café de popa.
No extremo ocidental
do esquecimento atopo
fogueiras submarinas
nos bairros miserentos.

Quero remar de vez
no coral dos teus braços,
boiar na flor da água
e arriar a mesana.

Quero vir de arribada
avante das marés,
que a tua pinga voz
regue os meus sulcos tristes;
safar bem neste mar,
neste beijo ribeiro,
neste afago chacal,
levado e calmo.     



ALGOL


Chorimas que choram
com picada de naja,
endiadradas estrelas,
doce besta sabática.

Pedras grises que lambem
com mágoa venenosa
a tua pele morna
de menina Medusa.

Beiços de talco cantam
no mar do teu despreço,
fazem a Figa
pró teu olhar em pingue-pongue.

Os pés frios espreitam
o vinho da tua ausência;
após de ti,
do teu vulcám em primavera.


PEDRAS SALGADAS




Pedras salgadas de lágrimas previstas
Café pingado de mágoas macerado
Mar incerto de amantes infelizes
Sabor na boca a fado que desagua

Segredos loucos em cantigas moucas
Marusia pingada de papoulas
Sabor na boca a amante apunhalado
Noites mornas em ruas que desaguam

Alto floresce o malmequer nos bairros
Anda à toa o desejo emigrante
Os girassóis descem pela avenida
Da saudade, entre o medo que desagua

Pedras salgadas de adeuses imprevistos
Entrançados cabelos do futuro
Sabor na boca a fado que desagua
Do teu olhar na palma
Vi o destino.



LEQUE AZUL



Leque triste e azul de frio e tempo,
arrabalde de sonhos e quimeras,
doido outono a rir das primaveras,
beijos na linda boca do silêncio.

Teus olhos magoados pelo vento
de mentiras caladas que eu dissera,
rum com cola sob o céu sem estrelas,
ao acaso da corrente o teu lamento.

De cor sei meus pecados e fraquezas,
devagar cai a chuva com som cego,
descendo mole co’ seu odor de báguas.

Dizem algúns não ter fim a tristeza,
é como abano a agitar o sossego,
correnteza a mexer águas exaustas. 



AJÔUJERE


Tempo raposo de pedra e lua a minguar,
porto a bocejar, ateigado de música azul;
o orfeu de sombras caminha sem olhar cara atrás;
como um ajôujere, os sonhos seguem a miar.

Mentira leporina, rixa e medo a ceifar
as vontades, lagartixas na procura do sol.
O afago de esperança segue a nos pingar,
como um nómada teima em alcançar o azul.

Tempo triste de brêtemas e luz a pairar,
no bico um cantar novo que afasta o lobo azul,
venceremos a noite que nos afoga cruel,
brilharemos na testa como estrela de mar.

© Jurjo Nóvoa, 2009.
All rights reserved worlwide.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

De paso .- Xavier Frías Conde

De paso. That's all. A kind of quick blow. It immediately goes away. No forgiveness required. Oblivion, just oblivion
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[1]

contemplarla
es contemplar
su tristeza
más triste


[2]

que diga
si es que sabe
cómo desgustar
la piel
de sus carencias

[3]

fue un río
fluyendo
dedo a dedo
y una ciudad
que quiso
aprender a levitar
y...
una mueca
inconclusa

[4]


destellos
verá

destellos
aunque calle

[5]

se preguntaba
dónde habitaría entonces
aquel aroma
de jabón desnudo
que había teñido
tantos
tantos sueños

mas los sueños
a la postre
ya no sueñan

[6]

sus vigilias
disimulando sus palmas
saladas
eran
tan solo
el reverso
de su soledad


[7]

un día
tuvo
aromas de mística

ahora
retiene aprendices de muerte
con horquillas


[8]

si acaso
algún día asciende
ha de saber que
cielo e infierno
se trocaron

mas quién
se lo cuenta
a tanta ausencia


[9]

de paso
se convirtió en estación
por el llanto
borrada
sin pasos
sin caricias



© Xavier Frías Conde

Domingo, Novembro 08, 2009

Malinconia.- Xavier Frías Conde

Malinconia is melancholy, a chant to what any of us misses as the deepest sense of existence. Life is a gift, but beloved beings cannot be a mere remembrance. Someone is missing; someone should hear the voice of bitterness. But poetry is rather a chant to hope, a possibility to turn pain into beauty.
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[1]




a lua inerte
dois espelhos
tanta nada

aquelas pegadas
efémeras
de menina
e logo
mais lua fria
mais mudos espelhos
mais tanta nada


[2]


furtares
a cor da alma
o sugo da palavra

furtares
aquela última página
tão desejada

furtares
o tacto da vida
da minha menina

furtares
furtarem
a essência toda
que um dia
me criara borboletas
no berce
de todas as tristezas


[3]


que o telefone
seja esse eco
do mar remoto
assustado


mas que seja
aquele último alento
que na brêtema
de mim te fala
baixo
calmo
te enroupando




[4]


creio que ainda existes
porque pestanejam
desertos
ecrãs
e alto-falantes que sempre ficam mudos
quando te penso

mesmo ícones da lembrança
ainda te povoam a pele
miuda
de menina
que com olhos fechados
naquele tempo
ainda sempre me falavas


[5]


venderia a alma
por ver-te
mais uma vez
sorrir-me
e silenciar-me
aquele teu segredo



[6]



espero que ainda
alguma tarde
pouses silente
a tua testa
no meu ombro
calado

talvez assim
tornem as marés
a salvar-me



© Xafrico, all rights reserved worldwide. November 2009