Algol is the name of a double star. These are a few poems about fixed memories emerging from time to time. The Atlantic, the green land, the melody of a language are constant remembrances. Poetry is here aimed to keep secrets alive.
___________________________________________________________________PINGO
Pingada de suor
escuto a tua voz
que viaja pela chuva
como os deuses do agro,
que é gatada e anzol
quando baza a maré,
quando o céu escamado
já me canta no papo a tua chegada.
Pingada de suor
escuto a tua voz
que é semente e rede,
que é galerna e futuro,
que é fruto azul escuro,
amora dos ocêanos.
Pingada de suor
escuto a tua voz
que engada o peixe mouro
e as bússolas hipnóticas,
que é cavalo mareiro,
língua a bater na noite,
cor de jazz em setembro.
Pingada de suor
escuto a tua vozquando a lua tem cerco
e o teu ventre é uma alquimia
de iodo e marusia,
quando a cauda do sal
peneira os caracois do teu cabelo.
Pingada de suor
escuto a tua voz
e bebo o morno som
como café de popa.
No extremo ocidental
do esquecimento atopo
fogueiras submarinas
nos bairros miserentos.
Quero remar de vez
no coral dos teus braços,
boiar na flor da água
e arriar a mesana.
Quero vir de arribada
avante das marés,
que a tua pinga voz
regue os meus sulcos tristes;
safar bem neste mar,
neste beijo ribeiro,
neste afago chacal,
levado e calmo.
ALGOL
Chorimas que choram
com picada de naja,
endiadradas estrelas,
doce besta sabática.
Pedras grises que lambem
com mágoa venenosa
a tua pele morna
de menina Medusa.
Beiços de talco cantam
no mar do teu despreço,
fazem a Figa
pró teu olhar em pingue-pongue.
Os pés frios espreitam
o vinho da tua ausência;
após de ti,
do teu vulcám em primavera.
PEDRAS SALGADAS
Pedras salgadas de lágrimas previstas
Café pingado de mágoas macerado
Mar incerto de amantes infelizes
Sabor na boca a fado que desagua
Segredos loucos em cantigas moucas
Marusia pingada de papoulas
Sabor na boca a amante apunhalado
Noites mornas em ruas que desaguam
Alto floresce o malmequer nos bairros
Anda à toa o desejo emigrante
Os girassóis descem pela avenida
Da saudade, entre o medo que desagua
Pedras salgadas de adeuses imprevistos
Entrançados cabelos do futuro
Sabor na boca a fado que desagua
Do teu olhar na palma
Vi o destino.
LEQUE AZUL
Leque triste e azul de frio e tempo,
arrabalde de sonhos e quimeras,
doido outono a rir das primaveras,
beijos na linda boca do silêncio.
Teus olhos magoados pelo vento
de mentiras caladas que eu dissera,
rum com cola sob o céu sem estrelas,
ao acaso da corrente o teu lamento.
De cor sei meus pecados e fraquezas,
devagar cai a chuva com som cego,
descendo mole co’ seu odor de báguas.
Dizem algúns não ter fim a tristeza,
é como abano a agitar o sossego,
correnteza a mexer águas exaustas.
AJÔUJERE
Tempo raposo de pedra e lua a minguar,
porto a bocejar, ateigado de música azul;
o orfeu de sombras caminha sem olhar cara atrás;
como um ajôujere, os sonhos seguem a miar.
Mentira leporina, rixa e medo a ceifar
as vontades, lagartixas na procura do sol.
O afago de esperança segue a nos pingar,
como um nómada teima em alcançar o azul.
Tempo triste de brêtemas e luz a pairar,
no bico um cantar novo que afasta o lobo azul,
venceremos a noite que nos afoga cruel,
brilharemos na testa como estrela de mar.
© Jurjo Nóvoa, 2009.
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