segunda-feira, fevereiro 08, 2021

ESTAMOS FEITOS ~ ESTAMOS HECHOS

 


estás
estou
estamos
feitos de tristezas

sorrimos muscularmente
e pintamos luares no rosto
próprio e alheio
para ficarmos à sombra

és
sou
somos
uma feliz anomalia

***

estás
estoy
estamos
hechos de tristeza

sonreímos muscularmente
y pintamos luz de luna en el rostro
propio y ajeno
para quedarnos a la sombra

eres
soy
somos
una feliz anomalía

© Frantz Ferentz, 2021

O MAIOR PROSTÍBULO ~ EL MAYOR BURDEL

 

durante semanas
escreveram-me todas as putas
boémias

deixavam uma ligação
para eu as visitar
virtualmente

durante semanas
o meu correio era um prostíbulo
e eu o rei
da indiferença

tanto nome bonito
tantos bits truncados
tanta porcaria de merda
de putas que fingem existir

durante semanas
recebi oito convites diários
para desfornicar
sem atravessar a ponte de Carlos
nem ouvir jazz em Praga

até que um dia
as mensagens cessaram
se calhar apagaram
as putas boémias
ou eu matei os prostíbulos
de indiferença

seja como for
ficam tantos putos por aí fora
que nem preciso de convites
para decifrar
a sua inexistência

***

durante semanas
me escribieron todas las putas
bohemias

dejaban un enlace
para que las visitase
virtualmente

durante semanas
mi correo era un prostíbulo
y yo el rey
de la indiferencia

tanto nombre bonito
tantos bits truncados
tanta porquería de mierda
de putas que fingen existir

durante semanas
recibí ocho invitaciones diarias
para desfornicar 
sin cruzar el puente de Carlos
ni oír jazz en Praga

hasta que un día
los mensajes cesaron
quizá se borraron
las putas bohemias
o yo maté los prostíbulos 
de indiferencia

sea como fuere
quedan tantos putos por ahí fuera
que ni necesito invitaciones
para descifrar
su inexistencia

© Frantz Ferentz, 2021

Leitura do poema por Elisabeth Morão.



VOLTOU A NEVAR ~ VOLVIÓ A NEVAR


voltou a nevar
dizem que 
com esta música tribalista
a neve dança

debruço-me
se por acaso
tu lá fora nevasses
até estenderia a mão
para mais uma vez
incógnito
pronunciar-te

voltou a nevar
numa língua
que desconheço

***

volvió a nevar
dicen que 
con esta música tribalista
la nieve baila

me asomo
por si acaso
hí fuera vos nevases
hasta extendería la mano
para aún una vez
de incógnito
pronunciarte

volvió a nevar
en una lengua
que desconozco

© Frantz Ferentz, 2021

CANCELAÇÃO ~ CANCELACIÓN


fui cancelado

se ainda por cá me veem
é porque os rastos ficam
e até podem berrar

mas fui cancelado!

não olheis mais nas palmas da mão
nem de soslaio para os espelhos
lá não estou
não estou em parte nenhuma

ou sim?
por acaso não fui cancelado?

apagastes-me bem?
tendes certeza de ter pronunciado
todos os rituais para eu não ser?

temei-me
temei-me
que ressuscito

***

me borraron

si aún por aquí me ven
es solo porque quedan rastros
y hasta pueden gritar

¡pero si me borraron!

no miréis más las palmas de las manos
ni de soslayo para los espejos
ahí no estoy
no estoy en ninguna parte

¿o tal vez sí?
¿pero es que no me borraron?

¿me habéis borrado bien?
¿estáis seguros de haber pronunciado
todos los rituales para que yo no sea?

temedme
temedme
que resucito

© Frantz Ferentz, 2021





 

domingo, outubro 11, 2020

FILHO DE MEIGAS ~ HIJO DE MEIGAS

 


sou filho de mil bruxas
mil meigas que tentastes queimar
   ou se calhar queimastes
mas não

sou filho da sua raiva
sou herdeiro da sua cegueira
sou mar dos seus rumos

sou filho daquelas mil bruxas
que fingiram calar
que hoje voltaram
sem se embrulhar porque gostam de voar nuas​

sou filho de uma mãe
que me ensinou a vos maldizer cantando
portanto
canto-vos enquanto vos maldigo

& & &

soy hijo de mil brujas
mil meigas que intentasteis quemar
   o que quizá quemasteis
pero no

soy hijo de su rabia
soy heredero de su ceguera
soy mar de sus rumbos

soy hijo de aquellas mil brujas
que fingieron callarse
que hoy han vuelto
sin envolverse porque les gusta volar desnudas​

soy hijo de una madre
que me enseñó a maldeciros cantando
por eso
os canto mientras os maldigo

© Frantz Ferentz, 2020

PREAMAR ~ PLEAMAR

 


f​​ascínio da preamar no teu cabelo
é quando fecho os olhos
e mergulho no tempo
que cheira a ti

felizmente 
ainda não amanhece

& & &

fascinación de pleamar en tu cabello
es cuando cierro los ojos
y me sumerjo en el tiempo
que huele a vos

por suerte
aún no amanece

© Frantz Ferentz, 2020

quinta-feira, outubro 08, 2020

VIDA

 



não nos fica tanta vida
a vida
      como bem sabes
não é uma ciência exata
é mais bem inexata
caprichosa
e até mordaz

embebedemo-nos de vida
até que escorregue pelos lábios
e adormeçamos

inventemos novos hedonismos
efémeros
sem ousar batizá-los

e vivamos
vivamos
por cima das nossas possibilidades

& & &

no nos queda tanta vida
la vida
     como bien sabes
no es una ciencia exacta
es más bien caprichosa
y hasta mordaz

emborrachémonos de vida
hasta que se nos escurra polos labios
y nos adormenternos

inventemos nuevos hedonismos
efímeros
sin osar bautizarlos

y vivamos
vivamos
por encima de nuestras posibilidades

© Frantz Ferentz, 2020

QUANTO PRESTA ~ CUÁNTO ME GUSTA

 


sou 
esse maldito bem-nascido
que vos interpela
da ponta da língua

nem imaginam
como presta saber
que vos lixa
que eu viva

&  &  &

soy
ese maldito bien nacido
que os interpela
desde la punta de la lengua

ni os imagináis
cómo me gusta saber
cuánto os jode
que viva

© Frantz Ferentz, 2020

terça-feira, outubro 06, 2020

QUANTO NOME ~ CUÁNTO NOMBRE

 



​quantas noites

são os nossos corpos

quantas milhas
têm os nossos limites nunca marcados

quanto de mim
não és tu

quantas vidas precisamos
para fingir que vivemos

quantas mortes
limitam a tua sombra

quanto nada
nos fica por engolir

quanto tempo ainda olharei
para o vazio
enquanto mexo silentes os meus lábios
a pretender que pronuncio teu nome
    o teu nome
apenas um café frio

&  &  &

cuántas noches
son nuestros cuerpos

cuántas millas
tienen nuestros límites nunca fijados

cuánto de mí
no sois vos

cuántas vidas necesitamos
para fingir que vivimos

cuántas muertes
bordean tu sombra

cuánta nada
nos queda por tragar

cuánto tiempo aún miraré
al vacío
mientras muevo en silencio mis labios
como si pronunciase tu nombre   
    tu nombre
apenas un café frío

© Frantz Ferentz, 2020

CANIBAIS ~ CANÍBALES



é tempo de canibais
beira a beira
preamar

nalguma altura 
esqueceste flutuar
    no contorno da tua boca
não há mais luz

infringes a desmemória
enquanto ainda lembro
quando eras corpo
      aquele teu sorriso
       a tua forma de silenciar 
já mais nada
e tu nada
mas sempre abundam
ao teu redor e nas sombras
os mesmos canibais

&&&

es tiempo de caníbales
orilla a orilla
pleamar

en algún momento 
se te olvidó flotar
   en el contorno de tu boca
ya no hay luz

infringes la desmemoria
mientras aún recuerdo
cuando eras cuerpo
      aquella sonrisa tuya
      tu forma de acallar 
ya más nada
y vos nada
mas siempre abundan
a tu alrededor y en las sombras
los mismos caníbales

© Frantz Ferentz, 2020

QUERO UMA LÍNGUA ~ QUIERO UNA LENGUA



​quero uma língua

não se importa se
de trapo
de papel
digital
ou usada

quero uma língua
que me dispa
sem pedir licença
e me permita soletrar
pelves no escuro

quero uma língua
fiel
anónima
e improvisada

quero uma língua
para mim
que apenas
eu
saiba falar

quero a tua língua

&&&

​quiero una lengua
no importa si
de trapo
de papel
digital
o usada

quiero una lengua
que me desnude 
sin pedir permiso
y me permita deletrear
pelvis en lo oscuro

quiero una lengua
fiel
anónima
e improvisada

quiero una lengua
para mí
que solo
yo
sepa hablar

quiero tu lengua

© Frantz Ferentz, 2020

terça-feira, setembro 29, 2020

FALAI ~ HABLAD




falai
falai-me
percorrei
percorrei a minha embalagem
e destinai
um par de existências
a contar-me chuvas

e falai
falai-me
em pretérito hipotético
de evitativo


hablad
habladme
recorred
recorred mi envoltorio
y destinad
un par de existencias
a contarme lluvias

y hablad
habladme
en pretérito hipotético
de evitativo

© Frantz Ferentz, 2020

quinta-feira, setembro 03, 2020

VIBRAÇÕES ~ VIBRACIONES

 A short, shaky history of curing with vibrations


decidi retomar o alento
voltar o olhar para dentro
e pronuniar talvez
dois ou três nomes ferrugentos

talvez deva redesenhar as beiras
da minha sombra
calar por decoro
e desconfessar--te
que alguma vez vibrei
     corrijo: que alguma vez te vibrei



he decidido retomar el aliento
volver la vista adentro
y pronunciar quizá
dos o tres nombres oxidados

acaso deba redibujar los bordes
de mi sombra
callar por decoro
y desconfesarte
que alguna vez he vibrado
       corrijo: que alguna vez te he vibrado



© Frantz Ferentz, 2020

segunda-feira, agosto 31, 2020

SÍLABAS IMPROVISADAS (PT/ES)

 


Ao meu pai

nem esperaste mais
pela hora da luz
pois a luz já era
faz tempo
mais do que uma morada de alentos

tu
por enquanto
já tinhas decidido
soprar-me um arco-da-velha
e falar
nessa língua que nunca falaras
e subir
até onde nunca subiras

lembranças da infância
que chegam ao final do princípio
uma mão -a tua-
que nunca cessou
um alento
que sempre flutua
por atrás das pálpebras
nós os dois cúmplices
que resolvemos partilhar
entre as sílabas improvisadas
de filho e pai

e só te digo
até breve
pai


ni esperaste más
la hora de la luz
pues la luz ya era
desde hace tiempo 
más que una morada de alientos

tú
mientras
ya habías decidido
soplarme un arcoíris
y hablar
en esa lengua que nunca hablaste
y subir
donde nunca subiste

recuerdos de infancia
que llegan al final del principio
   una mano -la tuya-
que nunca cesó
   un aliento
que siempre flota 
por detrás de los párpados 
   nosotros dos cómplices
que decidimos compartir
entre las sílabas improvisadas 
de hijo y padre

y solo te digo
hasta pronto
    papá

© Frantz Ferentz 27 de agosto de 2020

quarta-feira, abril 08, 2020

MORIR PARA ENTENDER


cualquier día
te descubriras asomada a la nada
sabrás que dejaste resbalar
trescientas vidas
una tras otra
una tras otra

serás triste baranda
por encima de un Tajo moribundo
romántico por una cuarentena
que dura toda una vida
es decir
    una exhalación

siempre recurres a los ríos
a sus orillas descalzas
para desearte primavera

separa los brazos
cierra los ojos
y recita
una plegaria que te suplante
la piel

morir para entender

© Frantz Ferentz, 2020

domingo, abril 05, 2020

FACE DA TERRA | FAZ DE LA TIERRA


ouço por fim
os teus passos discretos
além do vidro
a ecoarem na rua

será que choves
será que calas
me choves
e nos calas?

só tu
minha face da terra


oigo por fin
tus pasos discretos
más allá del cristal
resonando en la calle

será que llueves
será que callas
me llueves
y nos callas?

solo vos
mi faz de la tierra

© Frantz Ferentz, 2020

segunda-feira, janeiro 13, 2020

MÃE DE NASCIMENTO | MADRE DE NACIMIENTO

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hoje toca
proferir novamente as tuas entranhas, mãe

sou a hemeroteca que é sempre publicada quando já a luz
adormece no teu colo

hoje é esse dia, mãe
mas tu não dás por isso

***

hoy toca
pronunciar de nuevo tus entrañas, madre

soy la hemeroteca que siempre se publica cuando la luz
se duerme en tu regazo

hoy es ese día, madre
mas vos ni lo notas

© Frantz Ferentz, 2020

terça-feira, novembro 20, 2018

LOS HIJOS DE PATRIA

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«en español, hijo de puta»

las putas vuelan al alba
no sin antes dar los últimos toques
a las puestas de sol y
si es menester desinventar patrias aunque solo sea un rato

«en español, hijo de puta!»

hablo la lengua de mis sombras
me gusta hablarla
soy castellano de nacimiento
pero también alóglota de renacimiento
y heredero de vértigos y sinsabores que puedo
expresar en mil y una lenguas
como Schehrezade

«en español, hijo de puta!!»

pobres de los que no saben soñar
ni dar nombre a los tactos
ni concluir que el hálito no es un regalo de los dioses
pobres los que se aferran a la lengua
de trapo
o de cristal
y se autoinfligen con orgullo vejaciones

«en español, hijo de puta!!!»

no
ni siquiera hablaré
desperdiciad neuronas o teñidlas de azul
disputaos el aroma de la carroña
o sed carroña

el invierno es tiempo de huellas que van y vienen
sobre la nieve
van y vienen
no permanecen
por tanto    no se recuerdan

Y ahora
callad la boca, hijos de patria


© Frantz Ferentz, 2018

sexta-feira, julho 06, 2018

LAS VIEJAS SEÑORITAS

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las viejas señoritas
ahora juegan a ser putas
nunca lo fueron
nunca lo fueron

de noche maquillan sus almas
dejan sus pieles colgadas en la pared
como cuadros pues las enmarcan
        son museos de desmemoria que nadie visita
y rezan al diablo con verborrea
pues quieren ser putas
mas nunca lo fueron
nunca lo fueron

las viejas señoritas se reúnen
para tomar infusiones de hiel
mientras con alguna de sus múltiples bocas
deshuellan sueños ajenos
que luego mojan en el té

insisten en ser putas
nunca lo fueron
nunca lo fueron

sus ropas adolescentes gritan académicas
despliegan sus uñas -carecen de alas- maternalmente letales
y se ríen juntas - como chiquillas centenarias
mientras se adulan llamándose putas
mas nunca lo fueron
putas
no - nunca lo fueron

las viejas señoritas se irán
dejando rastros de orín y pestilencia
a ninguna parte
por tanto sed pacientes
dejad que las pobres viejas se crean arpías
tal vez con las prisas
olviden recoger sus pieles de la pared
y se vayan desnudas del alma

y que nadie
nadie se crea
que alguna vez
han tenido la dignidad de las putas.

© Frantz Ferentz, 2018

segunda-feira, junho 04, 2018

LOS PERROS DE LA MIERDA



​era mujer
era enfermera
estaba desarmada

​los perros de la mierda disparan​ a matar
los perros de la mierda olvidan a sus muertos tatuados
los perros de la mierda no tienen alma
solo son mierda

era mujer
era enfermera
estaba desarmada

los perros de la mierda hablan cavernas
los perros de la mierda se fingen profetas
los perros de la mierda violan conforme a la ley

era mujer
era enfermera
estaba desarmada

los perros de la mierda no tienen madre
los perros de la mierda no tienen alma
los perros de la mierda no emiten palabras
solo disparan sílabas fecales.

era mujer
era enfermera
estaba desarmada
era Razan al-Najjar
y ellos
los perros de la mierda
la asesinaron por la espalda

© Frantz Ferentz, 2018

quinta-feira, novembro 16, 2017

SOU SILÊNCIO ~ SOY SILENCIO


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sou silêncio
sem ser-te pele
sem te tocar

sou
sem me notares

********

soy silencio
sin serte piel
soy piel
sin tocarte

soy
sin que me notes

© Frantz Ferentz, 2017



domingo, outubro 08, 2017

ESTÁTUA ~ ESTATUA

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de dia era pedra
de noite era carne
de resto era pó

acariciávamos a pedra enquanto pronunciávamos mulher
mas a mulher tinha tacto de pedra

curva de pedra
sílabas de pedra
doce de pedra

a pedra não sabia amar
nem a si própria
fugiu pela beira da desmemória
e não voltou
e não volta
porque não sabe amar
nem desamar
nem tem lábios de memória


en el día era piedra
en la noche era carne
en el resto era polvo

acariciábamos la piedra mientras pronunciábamos mujer
mas la mujer tenía tacto de piedra

curva de piedra
sílabas de piedra
dulce de piedra

la piedra no sabía amar
ni a sí misma
huyó por el borde de la desmemoria
y no regresó
y no regresa
porque no sabe amar
ni desamar
ni tiene labios de memoria

© Frantz Ferentz, 2017

terça-feira, setembro 26, 2017

COMO UMA MENINA ~ COMO UNA NIÑA

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como uma menina
difuminas no ar com o teu dedo
o bafo da ausência

como uma menina
com tranças e meias brancas
percorres o meu queixo na ponta dos pés

como uma menina
recobras em mim o aventureiro
que nunca ousou confessar o seu amor à rapariga

como uma menina
beijas-me e calas-te e escondes-te
e se quiseres
só se quiseres
arrias a minha tristeza


como una niña
conjuras con tus manos pequeñas
el punto flaco de la distancia

como una niña
difuminas en el aire con tu dedo
el vaho de la ausencia

como una niña
de coletas y medias blancas
recorres mi barbilla de puntillas

como una niña
recobras en mí al aventurero
que nunca osó confesar su amor a la chica

como una niña
me besas y callas y te escondes
y si quieres
solo si quieres
arrías mi tristeza

© Frantz Ferentz, 2017

sexta-feira, setembro 22, 2017

MORO NUM PAÍS ~ VIVO EN UN PAÍS

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Moro num país que louva pedaços de madeira vestidos de princesas.
Moro num país de ladrões perfumados em álcool de mil euros cada garrafa.
Moro num país em que os pobres são material higiénico.
Moro num país de cadáveres meditabundos que gostam de crer que ainda falam.
Moro num país onde a inteligência é um crime imperfeito.
Moro num país de patriotas que fornicam com notas de banco adolescentes.
Moro num país que mente aos mapas.
Moro num país que assedia livros e finge memórias.
Moro num país onde os bons tentam não fazer eco de passos na rua.
Moro num país inabitável e hipócrita.
Moro num país onde choram os touros à alva.
Moro num país que não é país.
Moro num país que é um impaís trasvestido de país.
Moro num país sem alma.



Vivo en un país que adora trozos de madera vestidos de princesas. 
Vivo en un país de ladrones perfumados en alcohol de mil euros la botella. 
Vivo en un país en que los pobres son material higiénico.
Vivo en un país de cadáveres meditabundos que gustan de creer que aún hablan.
Vivo en un país donde la inteligencia es un crimen imperfecto.
Vivo en un país de patriotas que fornican con billetes adolescentes.
Vivo en un país que miente a los mapas.
Vivo en un país que acosa a libros y finge memorias.
Vivo en un país donde los buenos intentan no hacer eco de pasos en la calle.
Vivo en un país inhabitable e hipócrita.
Vivo en un país donde lloran los toros al alba.
Vivo en un país que no es país.
Vivo en un país que es un impaís travestido de país.
Vivo en un país sin alma.

© Frantz Ferentz, 2017

AUGUSTUS

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mais de dezassete mil passos
sem rumo
oráculos malgastados
e entardeceres fingidos    
perguntemos aos lençóis
se de ti sofrem marés

averiguemos onde fica
o centro de nenhures
e a que cheira  
              depois
convoquemos os crédulos crentes
destes bordeis de carne humana

só então
talvez nos perguntemos
o que és tu
caso tu sejas



más de diecisiete mil pasos
sin rumbo
oráculos malgastados
y atardeceres fingidos     
preguntemos a las sábanas
si de ti sufren mareas

averigüemos dónde queda
el centro de ninguna parte 
y a qué huele    
              después
convoquemos a los crédulos creyentes
de estos burdeles de carne humana

solo entonces 
tal vez nos preguntemos
qué eres tú
si es que realmente eres 

© Frantz Ferentz, 2017